Textos que exploram subtexto, constrangimento, velocidade de pensamento, vulnerabilidade e diferentes formas de fazer comédia
Um bom monólogo cômico não depende apenas de uma sucessão de piadas. O humor aparece quando a personagem deseja alguma coisa com urgência, tenta preservar sua dignidade e encontra maneiras cada vez mais desastrosas de resolver a situação.
Inspirados nos diferentes desafios de interpretação destacados pela Backstage, apresentamos cinco monólogos inéditos para atrizes. Todos podem ser adaptados para testes, estudos e self-tapes.
1. O áudio de sete minutos
Personagem: Lara
Faixa etária sugerida: 25 a 45 anos
Situação: Lara tenta impedir que sua chefe escute um áudio enviado acidentalmente ao grupo da empresa.
Antes de você ouvir, eu preciso explicar uma coisa. Aquele áudio não era exatamente sobre você. Era sobre uma pessoa que tem o seu nome, trabalha no mesmo setor e também usa aquelas sandálias que fazem barulho no corredor.
Mas pode ser qualquer pessoa.
Sônia é um nome muito comum.
Eu conheço umas quatro. Você, a Sônia da portaria, uma prima da minha mãe e uma personagem que inventei agora.
O áudio tem sete minutos porque eu estava testando um podcast. Um podcast sobre relações profissionais. O episódio se chama “Quando a liderança confunde reunião com sequestro”. É um título forte, eu sei. Marketing.
Quando eu disse que você marca reunião para contar coisas que poderiam estar num e-mail, eu estava elogiando sua capacidade de reunir pessoas. Isso é liderança. Quando falei que você suga a nossa energia, era no sentido de absorver. Você absorve a energia da equipe. Como uma esponja. Uma esponja corporativa.
Não precisa apertar o play.
Acho desnecessário você ouvir uma coisa que já estou explicando pessoalmente. Inclusive, essa conversa demonstra maturidade da minha parte.
Eu poderia ter fingido uma invasão no celular. Poderia dizer que clonaram meu WhatsApp. Mas escolhi a verdade.
Uma versão organizada da verdade.
Se você decidir me demitir, eu só peço que não escute o minuto cinco. É quando falo que não tenho reserva financeira e que preciso desesperadamente deste emprego.
Aquilo, infelizmente, não era metáfora.
2. O retiro do silêncio
Personagem: Camila
Faixa etária sugerida: 25 a 50 anos
Situação: Depois de abandonar um retiro espiritual, Camila tenta provar que está completamente em paz.
Eu não fui expulsa. Nós chegamos juntos à conclusão de que a minha energia não combinava com o retiro.
O lugar se chamava “Templo do Silêncio”. Eu deveria ter desconfiado. Silêncio demais é uma forma de agressividade.
No primeiro dia, pediram que a gente ficasse doze horas sem falar. Eu respeitei. Só fiz três perguntas. Quatro, se você considerar que “esse banheiro é misto?” é uma pergunta. Para mim, era uma emergência.
Depois veio a meditação com o sino.
A mulher batia naquele sino e dizia para deixarmos os pensamentos passarem. Os meus não passavam. Eles se sentavam. Pediam café. Abriam assunto.
Comecei a pensar se tinha trancado a porta de casa. Depois pensei que nunca fiz seguro residencial. Depois me lembrei de que vou morrer. Tudo isso antes da segunda batida do sino.
E ninguém fazia nada.
Trinta pessoas sentadas no chão, assistindo à minha crise em silêncio. Uma falta de solidariedade impressionante.
Naquela noite, levantei para conversar com a coordenadora. Ela disse que eu precisava escutar minha voz interior. Eu respondi que era justamente dela que estava tentando fugir.
Foi aí que ela usou a palavra “incompatibilidade”.
Mas estou ótima. Renovada. Olha como estou respirando.
Um, dois, três…
Por que você está me olhando assim?
Fala alguma coisa.
Eu passei três dias cercada de gente calada. Se você ficar em silêncio agora, eu vou considerar provocação.
3. A última noite de Odete Valença
Personagem: Odete Valença
Faixa etária sugerida: 40 a 70 anos
Situação: Uma antiga artista de cabaré se recusa a abandonar um teatro que será transformado em estacionamento.
O senhor pode voltar amanhã com a prefeitura inteira. Pode trazer fiscal, engenheiro, escavadeira e aquele rapaz desagradável que mediu meu camarim sem pedir licença.
Eu não saio.
Este teatro não pode virar estacionamento. Automóvel não aplaude.
Durante vinte e oito anos, eu entrei naquele palco e fiz pessoas esquecerem as próprias vidas. Algumas por duas horas. Outras porque bebiam durante o espetáculo, mas o efeito artístico existia.
Já fui recebida com flores, gritos e uma proposta indecente de um secretário de Cultura. Em 1997, uma mulher desmaiou durante meu número musical. Disseram que foi o calor, mas eu conheço o poder da minha nota aguda.
Agora o senhor aparece dizendo que o prédio não tem mais utilidade.
Ontem tivemos doze pessoas na plateia. Doze! Jesus começou com o mesmo número e ninguém sugeriu transformar o local da Santa Ceia numa garagem.
Eu sei que o mundo mudou. Sei que hoje as pessoas assistem a uma mulher cantando dentro de um telefone. Mas eu não passei quarenta anos aprendendo a projetar a voz para terminar disputando atenção com uma tela de quinze centímetros.
Enquanto eu estiver viva, este lugar continuará sendo um teatro.
E, se o senhor realmente pretende me retirar daqui, faça o favor de esperar as oito horas.
A sessão começa pontualmente.
Ninguém expulsa Odete Valença antes do espetáculo. E, depois que começar, o senhor vai precisar comprar ingresso.
4. Estou muito feliz por você
Personagem: Renata
Faixa etária sugerida: 20 a 45 anos
Situação: Renata tenta parabenizar uma amiga que conseguiu o papel para o qual as duas fizeram teste.
Eu estou muito feliz por você.
Muito.
Só preciso repetir algumas vezes até o meu rosto receber a informação.
É que eu também queria o papel. Você sabe. Fui eu que te mandei o teste. Não estou dizendo que você só conseguiu por minha causa. Imagina. Você conseguiu pelo seu talento, pela sua beleza e pelo link que saiu diretamente do meu WhatsApp.
Mas eu estou feliz.
Quando você me contou, fiquei até sem ar. Isso é alegria. Algumas pessoas gritam, outras choram. Eu perdi temporariamente a capacidade pulmonar.
E você merece. Fez três meses de preparação. Eu fiz oito anos, mas não vamos transformar isso numa competição. Até porque você já ganhou.
Desculpa.
Eu não quero estragar este momento. Você é minha amiga. Eu quero que você chegue longe. Só não imaginava que chegaria primeiro e usando o caminho que eu te mostrei.
Nossa, isso ficou horrível.
O problema não é você ter conseguido. O problema é que, por alguns minutos, sua vitória pareceu confirmar tudo o que eu tenho medo de ser. Esquecível, atrasada, quase boa.
Mas isso é meu. Não é seu.
Então eu vou respirar, organizar esta cara e comemorar com você. De verdade.
Só não me peça para ensaiar suas falas hoje. Amanhã eu volto a ser uma pessoa generosa.
Hoje eu preciso ser uma atriz desempregada com limites.
5. Tchauzinho, o aplicativo
Personagem: Nina
Faixa etária sugerida: 20 a 45 anos
Situação: Nina apresenta a investidores um aplicativo criado para ajudar pessoas a escapar de encontros sociais.
Senhoras e senhores, apresento o Tchauzinho, o primeiro aplicativo que avisa o momento exato de ir embora.
Todo mundo sabe chegar. O problema é sair.
Você está num aniversário. Já comeu, conversou, elogiou a decoração e perguntou por uma pessoa que nem conhece. Sua função social terminou, mas você continua ali porque não sabe como se despedir.
O Tchauzinho resolve.
O aplicativo analisa o nível da música, a quantidade de bebida restante e a frequência com que o anfitrião olha para a porta. Quando identifica que sua presença deixou de ser necessária, ele vibra.
Uma vibração significa: comece a procurar sua bolsa.
Duas vibrações: diga que amanhã acorda cedo.
Três vibrações: emergência. Saia sem beijar ninguém.
Também temos o recurso “Ligação da mãe”. O telefone toca e uma voz feminina diz: “Filha, aconteceu uma coisa”. Não explica o que aconteceu porque detalhes geram perguntas.
Para encontros românticos, oferecemos o “Alerta de incompatibilidade”. Se a pessoa disser “não gosto de filme nacional” ou “não tenho paciência para terapia”, o aplicativo chama um carro automaticamente.
Eu criei o Tchauzinho depois de permanecer sete horas num chá de bebê de uma colega chamada Priscila. Eu não conhecia a Priscila. Entrei no salão procurando um banheiro e não consegui mais sair.
Foi traumático, mas também foi pesquisa de mercado.
Então, quem deseja investir?
Ninguém?
Perfeito. Isso confirma a necessidade do produto.
O aplicativo acabou de me enviar três vibrações.
Foi um prazer conhecer vocês.
Esses textos são integralmente originais e podem ser publicados na matéria.
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