Textos originais para crianças exercitarem timing, imaginação, espontaneidade e mudanças de intenção
Por Felipê Aguìar
Fazer comédia exige mais do que contar uma piada. A criança precisa compreender o problema da personagem, acreditar verdadeiramente naquela situação e descobrir pensamentos enquanto fala.
1. Eu mudei de ideia sobre o cachorro
Faixa etária sugerida: 7 a 11 anos
Trabalha: energia, argumentação, imaginação e escalada cômica.
Eu sei que ontem eu chorei porque queria um cachorro. Mas isso foi ontem. As pessoas mudam.
Agora eu quero uma capivara.
Antes de você dizer que não cabe no apartamento, eu já medi o elevador. Cabe. Um pouco apertada, mas cabe. A gente sobe de lado.
Também pesquisei e capivara come mato. Mato é praticamente de graça. Tem um monte no terreno atrás do prédio. Ela ainda vai ajudar na limpeza.
Eu já escolhi o nome. Jurema.
Se for menino, continua Jurema. Não quero confundir o animal com mudanças desnecessárias.
Ela pode dormir no meu quarto. Eu tiro os brinquedos, a escrivaninha e, se precisar, a cama. Durmo no sofá. Estou preparada para fazer sacrifícios.
Na escola vai ser ótimo. Quando tiver apresentação sobre animais brasileiros, eu levo a Jurema. A professora vive dizendo que precisamos participar mais.
E capivara é um bicho tranquilo. Nunca vi uma capivara latindo para visita, rasgando almofada ou pedindo para alguém jogar uma bola.
Olha, eu entendo que seja uma decisão importante. Por isso não precisa responder agora.
Pode pensar até a hora do jantar.
Se a resposta for não, aceito um cachorro.
Mas quero deixar registrado que essa família acabou de perder a oportunidade de ter a primeira capivara do condomínio.
2. Operação Sem Prova
Faixa etária sugerida: 9 a 14 anos
Trabalha: autoconfiança, personagem, ritmo e quebra de expectativa.
Meu plano era perfeito.
A professora entraria na sala, abriria a gaveta e perceberia que as provas tinham desaparecido. A turma entraria em pânico. Ela perguntaria quem foi. Ninguém responderia.
Então eu me levantaria devagar e diria: “Talvez algumas perguntas devam permanecer sem resposta”.
Foi essa parte que ensaiei no espelho.
Eu seria conhecido como o maior gênio da escola. Não como um criminoso. “Criminoso” é uma palavra muito pesada para alguém que ainda precisa de autorização para ir ao banheiro.
O problema é que eu não roubei as provas. Só mudei o envelope de lugar.
Coloquei dentro do armário de materiais esportivos. Ninguém abre aquele armário desde que uma bola bateu na cabeça do diretor.
Tudo estava funcionando até eu decidir deixar uma pista.
Grandes gênios sempre deixam pistas. É uma questão de estilo.
Escrevi um bilhete: “Procure onde os atletas derrotados descansam”.
Só que minha mãe coloca meu nome em todo o meu material. Inclusive na caneta que usei para escrever o bilhete.
A professora reconheceu.
Agora a prova foi remarcada, perdi o recreio e preciso escrever uma redação sobre responsabilidade.
Mesmo assim, o plano não foi um fracasso completo.
Eu não estudei para a prova, mas já tenho assunto para a redação.
3. Minha campanha para representante
Faixa etária sugerida: 8 a 13 anos
Trabalha: comunicação, carisma, velocidade e contato direto com o público.
Colegas, eu não vim aqui fazer promessas impossíveis.
Por isso, retirei da minha campanha a piscina no pátio, o elevador para o segundo andar e a visita da Taylor Swift na festa junina.
Meu compromisso agora é com propostas realistas.
Primeiro, toda segunda-feira começará na terça.
Segunda-feira é um dia que não funciona para ninguém. Os alunos chegam com sono, os professores chegam irritados e a cantina só tem biscoito de água e sal. Podemos eliminar.
Segundo, proponho a troca do sinal da escola. Aquele barulho parece um aviso de evacuação. Minha ideia é colocar uma música. Cada turma escolhe uma. Só não pode sertanejo triste porque ninguém merece sofrer antes da aula de matemática.
Também vou lutar por um intervalo maior. Quinze minutos não é recreio. É um trailer de recreio. Quando a brincadeira começa, já aparece alguém mandando formar fila.
Por último, quero criar o Dia Oficial do Esquecimento. Uma vez por mês, cada aluno poderá esquecer uma coisa sem levar bronca. Pode ser o caderno, o trabalho ou o próprio irmão na saída.
Sei que alguns candidatos vão dizer que nada disso é permitido.
Mas eles estão pensando como alunos.
Eu estou pensando como representante.
Se vocês votarem em mim, talvez nenhuma proposta seja aprovada. Porém, todas as reclamações serão feitas com muita firmeza.
E isso já é mais do que temos agora.
4. A última pessoa da chamada
Faixa etária sugerida: 9 a 14 anos
Trabalha: humor sutil, ansiedade, mudanças internas e escuta.
Eu gostava do meu sobrenome.
Zanetti.
Sempre fui a última pessoa da chamada. Isso me dava tempo para entender o que estava acontecendo.
Se a professora perguntava a tabuada, eu ouvia vinte e nove respostas antes da minha vez. Se era leitura, eu contava os parágrafos e calculava exatamente qual seria o meu.
Nunca trapaceei. Eu prefiro chamar de planejamento alfabético.
Hoje, a professora entrou na sala e disse que começaria a chamada de trás para frente.
Sem aviso.
Isso não existe. A ordem alfabética é uma das poucas coisas seguras da vida. O “A” começa, o “Z” termina e todo mundo respeita.
De repente, ela falou: “Zanetti”.
Eu ainda estava tirando o caderno da mochila. Respondi “sete”.
Ela só queria saber se eu estava presente.
A turma inteira riu. Eu também ri porque, quando todo mundo ri de você, parece mais digno participar.
Depois ela pediu que eu fosse a primeira pessoa a apresentar o trabalho.
A primeira!
Passei a vida inteira me preparando para ser a última.
Fui até a frente, abri o cartaz e comecei a falar. Não lembro de nada. Só sei que, quando terminei, todo mundo bateu palmas.
Talvez tenham gostado.
Talvez estivessem felizes porque acabou.
De qualquer maneira, amanhã vou chegar preparado.
A menos que ela resolva fazer a chamada pelo tamanho do pé.
Nesse caso, preciso descobrir o número de todo mundo.
5. A excursão ao museu
Faixa etária sugerida: 8 a 13 anos
Trabalha: fluxo de pensamento, imaginação, ansiedade e revelação final.
Eu quero muito ir à excursão. Só acho importante considerar alguns riscos.
Primeiro, o ônibus.
Não estou dizendo que o motorista dirige mal. Nem conheço o motorista. Esse é exatamente o problema. Vamos confiar nossas vidas a uma pessoa que será apresentada no estacionamento?
Depois tem o museu.
A professora disse que existem objetos com mais de três mil anos. Se ninguém mexeu neles até agora, talvez exista um motivo.
E se tiver uma maldição?
Todo filme começa com alguém dizendo: “Isso é apenas uma antiga lenda”. Dez minutos depois, as portas fecham e uma múmia começa a perseguir todo mundo.
Eu não tenho preparo físico para fugir de uma múmia.
Também falaram que não podemos tocar em nada. Isso coloca muita pressão. Quando alguém diz “não toque”, minha mão começa a ter ideias próprias.
E se eu tropeçar? E se esbarrar numa estátua? Minha mãe não tem dinheiro para comprar uma estátua egípcia.
Levei lanche, água, casaco, guarda-chuva, curativo, lanterna e um apito. A professora disse que vamos ficar fora por apenas quatro horas, mas é assim que as pessoas são surpreendidas.
Só falta decidir onde vou sentar.
Esse é o verdadeiro problema.
O Gustavo quer sentar comigo e ele mastiga de boca aberta.
Prefiro enfrentar a múmia.
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