Eu tenho um desejo antigo por morangos.
Não só pelo gosto doce e ácido ao mesmo tempo —
mas pela ideia.
Morangos me provocam.
Tem algo na carne vermelha, na pele cheia de pontinhos…
como se cada um guardasse um segredo.
Morangos são indecentes.
Disfarçados de fruta delicada.
Mas, se você morder devagar, com os olhos fechados…
eles contam coisas que nenhuma fruta tem coragem de dizer.
(uma pausa. Ela se move, como se sentisse o gosto)
Já reparou como o morango é sempre oferecido como promessa?
De prazer.
De verão.
De lábios.
Ele não é só fruta é convite.
Pra língua. Pra pele. Pra ousadia.
(mais firme, mais denso agora)
E eu, que tenho fome de pele e memória,
me lembro das pessoas que desejei…
como quem deseja morangos:
com culpa, com medo, com um tipo de coragem que treme.
Havia uma
Que falava meu nome como se estivesse prestes a me morder.
Eu nunca toquei.
Mas desejei tanto, que doeu entre as pernas.
E, desde então, todo morango me lembra disso.
(olha para o nada, um leve sorriso no canto da boca)
Dizem que morango é fruta de festa.
Pra mim é fruta de silêncio.
De madrugada.
De lençol bagunçado.
Fruta de mulher que olha pra outra mulher e entende sem palavra nenhuma
que o desejo não precisa pedir licença.
(pausa lenta, respirada. Ela volta o olhar)
Eu tenho um desejo antigo por morangos.
Talvez ele nem seja fome.
Talvez seja só saudade…
do gosto que não provei.
Felipê Aguìar
Putz, que texto lindo, Felipe
ResponderExcluir