TÍTULO: “O AMOR QUE NUNCA CHEGOU”
( está sentada à janela, bordando, suspirando de tempos em tempos. Olha para a rua, depois para o bordado. Balança a cabeça, amarga.)
a vida, a vida… passou e nem me esperou.
(Pausa dramática. Olha para a amiga, cheia de falsa serenidade.)
Mas eu nunca precisei de homem pra nada, viu? Nunca precisei! Deus me basta, minha fé me sustenta, e minha moral… ah, essa segue intacta! Diferente de certas e determinadas por aí, que jogaram a honra no mato e saíram rebolando pelo mundo.
(Abaixa o bordado, encara a plateia, tom confessional.)
Mas não pense que eu nunca tive pretendentes… ah, tive sim! Muitos! Homens honrados, educados… só que o destino, esse malvado, foi me pregando peças. Um morreu antes do noivado, o outro virou padre, o outro fugiu com a empregada… O último… ah, o último…
(Pausa, suspiro. Depois, muda para um tom mais amargo.)
Casou-se! Com uma qualquer! Uma qualquer!
Mas eu sou uma mulher de respeito! Não vivo de migalhas, não corro atrás de homem!
(Sorri falso, ajeita o cabelo, volta ao bordado.)
Mas, às vezes… às vezes eu me pergunto… e se eu tivesse sido um pouquinho mais… levada? Só um pouquinho!
(Balança a cabeça, rindo sozinha, depois fecha a cara.)
Ah, Deus me livre! O que é meu, tá guardado!
(Pausa. Olha para a janela, depois para as mãos.)
Só não sei onde.
(Baixa os olhos, volta a bordar, resignada.)
texto 2
TÍTULO: “O CAJADO E A VERGONHA”
(Segurando um terço, abanando-se, olhos de indignação)
Ah, Senhor, dai-me paciência, porque se me deres força… vai ter gente indo pro inferno mais cedo do que devia!
A cidade toda entregue à perdição! Jovens seminuas rebolando por aí, homens casados se atirando no pecado sem nem tirar a aliança do dedo! E eu? Eu, sofredora, única testemunha viva da decência, sendo obrigada a ver essa pouca vergonha!
(Aproxima-se, tom de conspiração)
A senhora viu? Não, porque se visse, desmaiava no ato! Aquele bandido… Aquele herege… aquele… infeliz do meu irmão, num beco escuro, entregue à devassidão! Não posso nem descrever, que minha língua é pura demais para tamanho horror. Mas o que esperar? O sangue é o mesmo daquela que nos envergonhou, daquela que preferiu o luxo à virtude, a perdição à família!
(Suspiro dramático, mãos ao peito)
E eu? Eu aqui, sustentando este lar, guardando a moral desta família, segurando no cajado da retidão para não tombar nesse lamaçal! Porque se eu tombar, minha filha, o mundo acaba!
(Ajusta o véu, indignada)
Dizem que sou amarga. Pois sou mesmo! Mas a verdade é que o mel desse povo tem veneno! E eu, que sou forte, que sou temente, que sou reta, sou chamada de exagerada! Pois digo e repito: há de cair um castigo divino!
(Olha ao redor, sussurra)
E se não cair por conta própria… ah, mas há de cair por outras mãos…
(Sorri de canto, e sai abanando-se, altiva, como quem esconde um plano.)
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